Difícil (di)gestão

Uma das revistas que mais gosto de ler é a Trip. Os textos são muito originais, e os assuntos interessantes.

Na edição de abril deste ano, número 165, o editor Paulo Lima escreveu um editorial que vale a leitura, pois fala sobre a nossa alimentação, e nos faz refletir como estamos levando nossas vidas “modernas” em relação ao que comemos. Veja abaixo o texto reproduzido:

“Nem é preciso consultar nutrólogos, nutricionistas, psicoterapeutas, endocrinologistas, “gastros” ou quaisquer outros especialistas. Basta estar vivo para perceber na pele e nas próprias entranhas a ligação absoluta entre ansiedade e comida. Há sinais por toda a parte… nos espaços destinados aos “cafés” nas empresas, nos restaurantes por quilo que se alastram pelas cidades, nos endereços gastronômicos de luxo, nos refeitórios populares, em encontros de ex-fumantes que engordaram, nas crianças obesas “bem antes da hora”, nas estatísticas que revelam a invasão da camada de gordura nas classes mais baixas da estrutura social…

Radares dos mais diferentes calibres acusam os mesmos sintomas. O modelo de vida desenvolvido na maioria das culturas (antes e muito especialmente nas ocidentais) – que imaginou e definiu em algum momento o consumo e o acúmulo de tudo em doses industriais como melhores respostas às buscas humanas por estabilidade e felicidade – gerou uma espécie bomba-relógio de ansiedade, exponencialmente multiplicada pelos avanços da tecnologia.

Quando essa bomba começa a explodir (seja em forma de artérias bloqueadas e rompidas, de pessoas incapazes de se conformar e de lidar com suas realidades morfológicas, com vidas desperdiçadas por conta de ingestão de lixos diversos, seja pela mais simplória perda de alguns dos pequenos e fundamentais prazeres da existência), num processo lenta e sutilmente devastador que lembra o das cápsulas “time released”, o quadro chega a desanimar.

ANSIEDADE E PRAZER

O foco desta edição da Trip, que reforça o terceiro ano de trabalho sobre os pilares que julgamos mais importantes e que, por conta disso, suportam tudo o que fazemos, vai além da alimentação. Trata dos excessos, da ansiedade, de como estamos lidando com as infinitas possibilidades que nós mesmos fomos capazes de produzir e que, se mal administradas, podem se voltar contra nosso bem mais importantes, a saúde e a vida.

Ao que parece, a culpa tomou o lugar do prazer, o equilíbrio perdeu para a radicalização e os excessos de ambos os lados. Da entrega absoluta ao lixo alimentar e às drogas de todos os tipos ingeridas sem dó aos exageros obsessivos de uma suposta higienização radical das dietas e dos hábitos alimentares.

Onde está o bom senso? Qual o caminho do meio, a saída para o desafio brabo que nos impusemos?

Se não temos a pretensão de resolver o teorema, arriscamos, sim, analisar hipóteses e erguer o periscópio para encontrar e mostrar experiências humanas de sucesso e de fracasso, para seguir, assim, nossa vocação: alimentar mentes, espíritos e corpos abertos e flexíveis, com pratos honestos de reflexão de boa qualidade.

Desfrute com saúde!

Paulo Lima, editor”

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